As novas circunstâncias da geopolítica mundial estão encapsuladas em dois números divulgados pela China nesta quinta-feira, 5 de março: a redução de suas metas de crescimento do PIB para 4,5%-5%, em 2026, e o aumento de 7% em seus gastos militares.
Os dois indicadores estão ligados a circunstâncias que antecedem os ataques de EUA e Israel ao Irã. Mas a guerra no Oriente Médio promete reforçar essas tendências e impor desafios significativos a Pequim.
A guerra no Irã impacta diretamente a economia chinesa, principalmente sua segurança energética. O conflito completa um “choque triplo” para a China, que já enfrentava a interrupção do fluxo de petróleo venezuelano e gargalos na oferta russa devido à guerra com a Ucrânia.
Com a “decapitação” do regime iraniano, Pequim perde um arranjo comercial que em vez de dólares, envolvia permutas – especialmente, óleo por armas. O país será forçado a comprar combustíveis num mercado global com preços em alta e em dólares americanos.
A longo prazo, a economia chinesa já apresentava desaceleração estrutural. A meta de crescimento em 2025, de 5%, foi alcançada à custa de estímulos. A meta de 2026, a mais modesta desde 1991, reflete desafios como a prolongada crise imobiliária, a queda nos investimentos e a demanda interna fraca.
Os economistas do PC Chinês adotaram um termo para o processo em curso: “involução”, que envolve forças contraditórias de competição excessiva e estagnação econômica. O XV Plano Quinquenal (2026-2030) do governo pretende interromper esse ciclo. Mas, como observou recentemente o economista Livio Ribeiro, do Ibre-FGV, “o sarrafo do crescimento subiu” na China.
Essa desaceleração ou “involução” que ocorre na China não é apenas um problema doméstico. Se o grande motor de crescimento da economia global opera com menor potência, há impacto negativo em inúmeros mercados comerciais e financeiros ao redor do mundo.
Politicamente, a estratégia chinesa no Oriente Médio sofre um golpe severo com a derrubada ou mero enfraquecimento do regime dos aiatolás. O Irã, peça fundamental da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), era a “ponte terrestre indispensável” para que a China projetasse sua influência sobre o Oriente Médio, a África e a América Latina.
A guerra também traz um certo dano de imagem: armamentos chineses vão se mostrando ineficazes na defesa contra operações americanas (e isso também aconteceu na captura de Nicolás Maduro na Venezuela).
O aumento de 7% nos gastos militares anunciado pelo governo é o menor em cinco anos, mas supera a promessa de crescimento econômico. Ele dá prosseguimento a uma estratégia de modernização das forças armadas até 2035.
O investimento espelha a expectativa de que, depois de alterar o balanço de forças no Oriente Médio, os Estados Unidos se voltem à contenção da China. Com o Exército de Libertação Popular enredado em purgas internas e a ineficácia de equipamentos chineses no Irã observada pelo mundo, Pequim pode ver ampliar-se a “Janela de Davidson”.
A expressão se refere a um alerta feito em 2021 pelo então comandante das forças americanas no Indo-Pacífico, o almirante Philip Davidson. Segundo ele, o exército chinês estaria pronto para invadir Taiwan por volta de 2027. O Ocidente teria cerca de meia década para impedir que a ilha, fornecedora estratégica de chips para as indústrias de tecnologia, caísse nas mãos de Pequim. A guerra no Irã pode ser um passo nessa direção de aumentar esse intervalo de tempo.