Um trunfo para Lula na política externa

calendar 19 de janeiro de 2026
user Leonardo Barreto

A assinatura do acordo Mercosul-União Europeia tende a conferir um saldo positivo ao governo Lula na área de política externa em um momento no qual as narrativas de campanha presidencial começam a ser elaboradas.

Os resultados concretos do acordo devem demorar para aparecer, considerando a complexidade da sua implementação, mas o simbolismo já pode ser politicamente explorado, como sugere a abordagem que a imprensa tem dado ao tema.

A mensagem trazida pelo acordo ganha mais força quando é vista em contraste com a guerra comercial que está sendo ensaiada entre países europeus e os Estados Unidos em torno do controle da Groelândia.

Todos os grandes veículos trazem, nesta segunda (19), manchetes sobre a possibilidade de a Europa impor sanções de € 93 bilhões a empresas americanas no caso de uma possível invasão da ilha, hoje controlada pela Dinamarca.

Mensagens contrapostas

A contraposição de mensagens – protecionismo contra comércio livre – dá a Lula a oportunidade de se apresentar como um líder defensor do multilateralismo e até, curiosamente, de arquiteto do livre comércio, algo que não corresponde à sua linha histórica de pensamento.

Por exemplo, no Estadão e na CNN, artigos defendem que o acordo vai evitar que o Brasil tenha que escolher entre o EUA e a China na atual dinâmica geopolítica e que a briga da Europa com os americanos dará mais relevância ao acordo.

Boia de salvação

No campo da comunicação, repita-se, trata-se de um prato-cheio para o governo que, hoje, tem várias crises para administrar – a relação passada de Lula com Nicolas Maduro, a omissão de reação do governo brasileiro diante da repressão iraniana contra opositores, o avanço da direita nos países vizinhos – e um escolha controversa para fazer, de aceitar ou não o convite feito pelo presidente Donald Trump para integrar o conselho de reconstrução de Gaza que, aos olhos dos palestinos, poderia tornar o Brasil um sócio formal da política de intervenção americana na região.

Diante de um cenário desafiador, de uma política externa que evidenciou muita dificuldade de se posicionar em questões divisivas, a dificuldade da COP 30 e uma perda de relevância do Brasil, que sofre com o desmonte dos fóruns multilaterais, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul é uma verdadeira boia de salvação para a narrativa de Lula mirando as eleições de 2026.

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