Maduro saiu de cena. E agora?

calendar 5 de janeiro de 2026
user Carlos Graieb

O fim do regime de Nicolás Maduro, com sua espetacular prisão pelo exército americano, só pode ser descrito como uma bênção para a Venezuela e toda a América Latina, incluindo o Brasil. 

Maduro era autoritário, violento e corrupto. O fato de ser um fanfarrão era uma ofensa adicional, ainda que menos importante. 

Sob Maduro, os venezuelanos se viram privados dos recursos mais básicos de sobrevivência. O país se tornou origem de um dos maiores êxodos humanitários do século 21. A Human Rights Watch estima que 8 milhões de pessoas tenham partido de lá desde 2014. Um bom número delas se refugiou no Brasil.

O bolivarianismo não morreu

O fato de Maduro ter saído de cena não significa, contudo, que o bolivarianismo – a ideologia radical de esquerda instituída pelo seu antecessor e mentor Hugo Chávez – esteja liquidado. 

A vice de Maduro, Delcy Rodrigues, assumiu a presidência, sob os olhos dos Estados Unidos. 

Frustrou-se quem imaginou que a deposição ditador levaria a uma mudança imediata mais profunda, com a formação, por exemplo, de um governo encabeçado por líderes da oposição como Maria Corina Machado e Manoel González Urrutia, que venceu as eleições de 2024, mas foi obrigado a se exilar na Espanha. 

Os cálculos de Trump

As intenções do presidente americano Donald Trump para a Venezuela não são claras.

Na entrevista concedida na manhã de sábado, 3, pouco depois de as forças americanas terem capturado Maduro e sua mulher, ele disse que os Estados Unidos vão assumir temporariamente a gestão do país.

Afirmou também que as grandes empresas de energia dos Estados Unidos se encarregarão de reconstruir a infraestrutura de extração e refino de petróleo sucateada pelo bolivarianismo. 

Trump não deu mais detalhes sobre seus planos de gestão política. No mesmo sábado em que Maduro foi preso, Delcy assumiu. O americano só comentou esse fato no domingo, 4, depois de um pronunciamento petulante da venezuelana: “Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito elevado, provavelmente maior do que Maduro”.

O secretário de Estado americano Marco Rubio qualificou um pouco a declaração. Segundo ele, os Estados Unidos estão dispostos a negociar com Delcy e outros líderes do grupo, caso eles tomem “boas decisões”. 

A má decisão é óbvia: resistir aos EUA.

Boas decisões podem vir em dois sabores: uma composição que abre a Venezuela à influência americana e mantém o bolivarianismo no poder; ou uma composição que abre a Venezuela à influência americana, com a realização de eleições democráticas num futuro próximo.

Democracia plena pode demorar

A segunda alternativa é mais nobre, mas pode não ser aquela que, na visão dos Estados Unidos, favorece a estabilização da Venezuela. 

Há um motivo fundamental para isso: a coalizão que dava suporte a Maduro tem poder de fogo. É composta por militares e paramilitares que podem transformar em pesadelo os planos de Trump para o país. Neste domingo, policiais e milicianos foram para as ruas em Caracas, pedindo a “devolução” de Maduro ao país.  

Diante das promessas de campanha que fez em em 2024, de não envolver os Estados Unidos em conflitos demorados e custosos, e diante da aproximação das eleições de meio de mandato, neste ano, Trump certamente não deseja se ver preso num atoleiro venezuelano.

É como dizem os especialistas do Council of Foreign Relations em uma análise recém-publicada: “A oposição democrática da Venezuela possui forte legitimidade, com pesquisas indicando apoio de aproximadamente 80% da população. No entanto, Edmundo González, o candidato à presidência em 2024 que quase todos os observadores independentes acreditam ter vencido a eleição, e sua mentora, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz deste ano, María Corina Machado, estão fora do país. Mesmo que retornem, sem amplo apoio armado, terão dificuldades para obter o controle físico das ruas — um pré-requisito básico para governar. Embora Trump tenha prometido assumir o controle da Venezuela e consertar sua infraestrutura petrolífera, é improvável que ele, o Congresso dos EUA e a população americana tenham disposição para uma ocupação prolongada.”

O Brasil não liderou

Não é preciso afirmar que o motivo alegado inicialmente por Trump para intervir na Venezuela – deter o narcoestado comandado por Maduro – foi falso. Mas, agora que o plano foi posto em movimento, a questão que se impõe é outra: quais decisões tomar para que o país não volte à situação anterior?

Se os Estados Unidos concluírem que os bolivarianos precisam ser contemplados com alguma parcela de poder interno, e não apenas com promessas de anistia e trânsito livre para deixar o país, caso desejem, é isso que farão. Política dura e pura. 

Nem se deve imaginar que o ex-núcleo “madurista” vai se agarrar ferozmente à ideologia. Engolirá o bolivarianismo se tiver alguma perspectiva de continuar enriquecendo, mesmo que em ritmo menor. Oportunismo puro e duro. 

E o Brasil? O governo petista é sócio involuntário desse desfecho para a Venezuela. Por anos, mimou os bolivarianos. Em 2024, quando poderia ter pressionado Maduro a deixar o poder, tergiversou. Quando decidiu agir, negando reconhecimento à eleição fraudada, já não fazia diferença alguma. Suposto líder regional, o Brasil não liderou. Terá agora de lidar com Trump.

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