“A geografia importa”.
Esse foi o recado dado por Donald Trump, de todas as formas possíveis, na incrível operação que extraiu Nicolas Maduro do seu bunker em Caracas para uma prisão em Nova York.
As regras do jogo grande estão cristalinas.
Um ato de força extrema confirma que as Américas voltaram a ser uma zona de influência dos Estados Unidos.
Em termos econômicos, isso significa que o acesso a recursos naturais e outros empreendimentos econômicos passam a ter considerar a participação de operadores americanos em um novo patamar de importância estratégica? É possível.
Os termos políticos, no entanto, são os mais interessantes.
No caminho até a Casa Branca, Donald Trump prometeu não repetir intervenções que promovessem “regime changes”, refletindo traumas que ficaram da experiência ianque no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, lugares que consumiram toneladas de dólares e recursos para a manutenção de governos frágeis.
Ao que tudo indica, uma vez retirado Maduro, seu staff continuará governando a Venezuela sob a influência dos Estados Unidos. Quem tem o atual controle do país é quem vai liderar a transição política e econômica.
Indiretamente, essa posição em relação à Venezuela lança luz sobre as negociações recentes entre Trump e o presidente Lula.
Para Trump, é melhor ter Lula sob sua zona de influência do que arcar com o custo de pressão política e sanções econômicas que, no final, afetam fortemente também empresas norte-americanas.
A recente retirada de sanções comerciais e econômicas contra empresas e autoridades brasileiras por parte dos EUA deve ser lida como parte de um pacto de colaboração mútua no qual Lula também deve ter requerido algumas concessões, que permanecem na sombra.
O que ainda há por saber a força e a duração desse equilíbrio que Trump e Lula encontraram dentro de um contexto de desconfiança mútua.
O maior temor de Lula, exposto por vários jornalistas, é que Trump trabalhe para favorecer um candidato da oposição em outubro.
Lula, porém, não tem escolha, a não ser praticar um jogo de paciência. Ele vai tentar gerenciar as pretensões de Trump para não convulsionar a sua reeleição. Caso reeleito, vai esperar que as eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para 3 de novembro deste ano, enfraqueçam o republicano e lhe devolvam a capacidade de trabalhar com mais independência