VOTO Investment Forum conecta o Brasil ao capital internacional

calendar 19 de maio de 2026
user Da Redação

Pelo 16º ano consecutivo, o Grupo VOTO promoveu seu Investment Forum durante a Brazil Week, em Nova York. Nesta edição, o encontro ocorreu na sede da BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, que mantém US$ 170 bilhões aplicados na América Latina, sendo US$ 50 bilhões no Brasil. O fórum preservou a proposta que o orienta desde sua origem: aproximar empresários e lideranças brasileiras de investidores internacionais e debater o lugar do país nos fluxos globais de capital, em vez de simplesmente reproduzir, no exterior, discussões voltadas ao público interno. Os debates tiveram como anfitriões Karim Miskulin, presidente do Grupo VOTO, Bruno Barino, country manager da BlackRock no Brasil, e Aitor Jauregui, head da América Latina da gestora.

Competitividade

A urgência de elevar a competitividade do Brasil foi um dos fios condutores do evento. O tema apareceu desde o painel de abertura, que reuniu André Gerdau Johannpeter, chairman da Gerdau, e Eduardo Barbosa, CEO da Multiplica, até a conversa entre o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à presidência, Romeu Zema.

Gerdau chamou a atenção ao afirmar que, embora as operações da companhia na América do Sul e na América do Norte tenham volumes semelhantes, a segunda hoje responde por 70% do resultado da empresa. Segundo ele, a diferença não está na eficiência industrial, mas no ambiente externo às fábricas. “Enquanto quatro pessoas bastam para cuidar do processamento tributário das nossas operações nos Estados Unidos, no Brasil são necessárias 120”, afirmou. “Com o nosso sistema tributário, nem com IA. Se o país não mudar seus processos, automatizar não resolve.”

Conexão internacional

O fórum também abriu espaço para discutir as tendências globais de investimento e o posicionamento do Brasil nesse contexto, em painel com três executivos da BlackRock: Pablo Goldberg, Benjamin Souza e Nicolas Gomez. Na avaliação deles, o cenário econômico internacional hoje se organiza em torno de três vetores principais.

O primeiro deles é a maior incerteza global gerada pelas decisões políticas do presidente Donald Trump. O segundo é o choque de oferta em energia e commodities agrícolas provocado pela guerra envolvendo o Irã. O terceiro é a aceleração dos aportes em infraestrutura de inteligência artificial e datacenters, segmento que, segundo os debatedores, deve passar de US$ 380 bilhões em 2025 para US$ 725 bilhões neste ano.

Na visão dos executivos, o Brasil reúne condições favoráveis para aproveitar esse novo cenário, sobretudo em áreas relacionadas a energia, commodities e infraestrutura digital. Eles ponderaram, no entanto, que essa janela não se transformará automaticamente em investimento. Um movimento mais sutil percebido pelos gestores é a mudança no comportamento do investidor internacional: se antes a diversificação era feita por regiões, agora cresce a escolha mais seletiva de países específicos, com base em critérios como solidez institucional, previsibilidade regulatória e qualidade do ambiente de negócios. Países como a Coreia do Sul foram mencionados como exemplos de mercados que ganharam relevância nesse novo padrão de alocação de capital.

Nesse quadro, a trajetória da dívida pública brasileira surgiu como um ponto de atenção. Pablo Goldberg observou que não há um patamar exato de dívida em relação ao PIB que, por si só, afaste investidores do país, mas ressaltou que o mercado observa de perto os sinais emitidos pelo setor público brasileiro. Segundo ele, se o avanço da dívida, hoje próxima de 85% do PIB, não for contido, a percepção de que o país entrou em uma “debt trap” pode ganhar força rapidamente. “Se esse número continuar crescendo ao ritmo de 6% ao ano sem que nada seja feito, não vai demorar para surgir a impressão de que o problema saiu do controle”, disse.

Agricultura

O agribusiness brasileiro ocupou posição central no painel com Craig Tashjian, CIO da gestora americana AMERRA Capital, e na participação de Eduardo Barbosa, da Multiplica.

Barbosa destacou os gargalos logísticos, que podem representar 15% do preço dos produtos agrícolas brasileiros. “Ainda falta muita eficiência no agro, especialmente em transporte e armazenagem”, afirmou. Segundo ele, o papel de gestoras como a Multiplica tem sido demonstrar que esses entraves também representam oportunidades e, assim, atrair capital de longo prazo para novos investimentos. “Investir no Brasil é enxergar valor para além do óbvio”, disse.

Tashjian reconheceu que os fluxos de capital destinados ao agribusiness brasileiro ainda estão abaixo do necessário, em razão das dificuldades que o investidor estrangeiro encontra tanto no ambiente de negócios quanto na própria estrutura do setor agrícola. Ainda assim, destacou avanços institucionais e melhorias na execução dos negócios. “Sei que os brasileiros têm questões sobre o seu Judiciário, mas, como alguém que opera há 30 anos no país, sei que houve uma evolução notável, especialmente em comparação com países vizinhos”, disse. “Além disso, se observar com atenção, o investidor verá que os agricultores brasileiros são os produtores de alimentos mais eficientes do mundo.” Segundo Tashjian, em dez anos, os custos de produção e logística no Brasil caíram pela metade. “O peso da infraestrutura está diminuindo”, afirmou.

Conclusões

Para Karim Miskulin, o principal insight do VOTO Investment Forum foi a percepção de que o mundo está aberto ao Brasil. “Temos muito mais espaço no cenário global do que imaginamos, mas precisamos de mais estratégia, mais planejamento e mais construção de confiança e relacionamentos”, afirmou. “Há um horizonte de oportunidades que poderemos aproveitar se conseguirmos derrubar barreiras como a burocratização, a insegurança jurídica e a excessiva complexidade do sistema tributário.”

VEJA TAMBÉM